Rodrigo Gurgel

Ensaísta e crítico literário do jornal Rascunho desde 2006, Rodrigo Gurgel é autor de “Muita Retórica – Pouca Literatura (de Alencar a Graça Aranha)”, publicado pela Vide Editorial. Leitor crítico de editoras e agências literárias (presta serviços também a particulares), editor freelance e colunista do site Mídia Sem Máscara, Rodrigo Gurgel escreve, ocasionalmente, para outras publicações, impressas ou na web, como as revistas Dicta & Contradicta e Sibila. Também trabalha como coach literário, assessorando escritores na escrita ou reescrita de suas obras. Jurado do Prêmio Jabuti de 2009 a 2012, Gurgel ganhou notoriedade em 2004, quando foi escolhido como um dos dez vencedores do Concurso de Contos “Caderno 2”, do jornal O Estado de S. Paulo, dedicado aos 450 anos da cidade de São Paulo.
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Que falta terrível faz o Paulo Francis…

Em belíssimo artigo, Lorena Miranda analisa o final de “Crime e Castigo” e contesta o tradutor, Paulo Bezerra.

James Joyce passou a vida em busca de epifanias. Não a manifestação divina, mas pequenas ou grandiosas iluminações que, ele acreditava, escondiam-se sob os fatos e seriam capazes de arrancá-lo do presente repleto de mesmice e angústia – luta, em grande parte decepcionante, para libertar-se da Irlanda, das influências e lembranças familiares, do catolicismo e de sua própria fragilidade.

Herdada do cristianismo, essa tentativa de compreender a realidade a partir de uma perspectiva transcendental refuta as interpretações comuns do tempo. Para Joyce, a história não pode ser um contínuo corruptível, com começo, meio e fim, mas, como dizia Gregório de Nissa, deve ir “de começos em começos por começos que não têm mais fim”. Ou, nas palavras de Agostinho de Hipona, em suas Confissões, “não existem coisas futuras nem passadas; nem se pode dizer com propriedade: há três tempos, o passado, o presente e o futuro; mas talvez se pudesse dizer com propriedade: há três tempos, o presente respeitante às coisas passadas, o presente respeitante às coisas presentes, o presente respeitante às coisas futuras”.

Os motivos do escritor irlandês, contudo, não eram religiosos ou teológicos; ele não estava preocupado em sublimar a imanência ou distinguir, de forma profética, o destino do homem e do mundo. O que Joyce transformou em técnica literária, o registro do que ele acreditava serem revelações nasce do desespero para perpetuar o presente, do temor de que tudo lhe escape a cada instante. Ele tenta reter a essência dos fatos – para que o tempo não passe, não se desdobre. Como afirma Harry Levin no clássico James Joyce: A Critical Introduction (1941), “o afã de toda a vida de Joyce foi escapar do pesadelo da história, conceber a totalidade das experiências humanas num plano simultâneo, sincronizar passado, presente e futuro”.

Dois lançamentos da editora Iluminuras mostram aspectos do desespero joyciano: se Epifanias apresenta alguns dos resultados que o autor alcançou na tentativa de revelar mistérios para os quais a maioria dos homens está cega, em Cartas a Nora, correspondência enviada a sua mulher, Nora Barnacle (1884-1951), conhecemos a aflição no seu estado mais cru, livre das regras que o autor se impunha ao escrever literatura.

Epifanias é um livro desigual, provoca reações opostas. Para o editor e crítico literário John Gross, esses pequenos textos são “obstinadamente exânimes”, “carentes de drama”, “amorfos e insubstanciais”. Na opinião de Harry Levin, podem ser lidos “como exemplos de um gênero único e delicado, manifestações concretas da quidditas [essência] escolástica ou do porquê das coisas”. Ambos estão certos, a depender do trecho.

O leitor que enfrenta a primeira epifania pensará como Gross. Trata-se de um diálogo que só adquire sentido ao ser redescoberto no início de Retrato do Artista Quando Jovem. Mas, se não empreendemos esse exercício detetivesco ou não procuramos o auxílio de um guia seguro, as poucas linhas transformam-se numa cena desprovida de sentido – e podem despertar a culpa no leitor inexperiente, que se perguntará por que não percebe a singularidade de um texto do autor de Ulysses. Não há erro nenhum, no entanto, pois esses fragmentos são apenas exercícios de estilo, excertos de diálogos, rápidas cenas urbanas, visões do mundo onírico, amostras do que ele desenvolveria nos contos e romances.

As epifanias mostram a distância que há, quando se dispõe apenas de palavras, entre pretender desvelar um episódio fortuito e atingir realmente o objetivo, a ponto de produzir algo semelhante a um arrebatamento. Convidam o leitor a se manter equidistante da veneração e do menosprezo; só assim não se comportará como alguns obsessivos estudiosos, que poderiam descobrir literariedade até numa lista de compras, se encontrassem uma escrita por Joyce.

Mas há passagens extraordinárias, como a Epifania 33, na qual a primeira impressão, fotográfica, prolonga-se num quadro noturno povoado de prostitutas melancólicas e carentes. Ele a utilizará anos mais tarde, no Ulysses, mas antes transcreve o trecho, com variações, numa carta pungente que envia a Nora, em 29 de agosto de 1904. Só após lermos tal peça autobiográfica começamos a entender esse homem dilacerado pelo remorso e pelo anseio de ser famoso.

É curioso que, num espaço de três décadas, esta seja a segunda edição brasileira das cartas de Joyce a Nora – a primeira, de 1982, foi lançada por Massao Ohno e Roswitha Kempf, com tradução de Mary Pedrosa. Nossos editores parecem dar preferência às confissões íntimas do escritor, desprezando, na ampla epistolografia que deixou, as cartas, por exemplo, ao poeta Ezra Pound (1885-1972) ou a Sylvia Beach (1887-1962), sua benfeitora, que editou o Ulysses em 1922.

De qualquer forma, a correspondência revela muito mais que o escritor fetichista. Nora não foi apenas a epifania carnal de Joyce; veja-se, em 21 de agosto de 1909, a descrição próxima a um êxtase místico: “Teu amor me atravessou e agora sinto que a minha alma é algo assim como uma opala, isto é, cheia de matizes e de cores estranhamente variáveis”. Antes, tornou-se, para o escritor apóstata, a substituta profana da Virgem Maria: “Minha mãezinha, me ponha no escuro santuário do teu útero. Proteja-me, querida, do mal! Sou muito criançola e impulsivo para viver só. Me ajude, querida, ore por mim!” (24 de dezembro de 1909). Esse trecho e outros, repletos de lamentos tediosos de menino inseguro e desprotegido, não passam de degradações, na forma e no conteúdo, das Epifanias 7 e 34, nas quais brilha o tema do amor maternal.

À parte os clichês melosos e as súplicas infantis, o desespero de Joyce se irradia por todas as direções. Exige que Nora recorde os locais onde se encontraram e, segundo ele, foram felizes. Ela passa cinco dias sem lhe enviar uma carta, e ele a acusa de ter esquecido “os belos dias do nosso amor”. Reconhece que tal cobrança é algo monstruoso – mas volta a fazê-la na mesma carta (12 de julho de 1912). Quando está em Dublin, visita repetidamente esses lugares, incluindo os que ela habitou; e sua desesperadora insistência em recordar está longe do sereno “presente respeitante às coisas passadas” de Agostinho: “Vejo-te… vejo-te… vejo-te…”, repisa ele a 25 de outubro de 1909, buscando epifanias que façam renascer o passado tirânico.

Há igual sentimento em relação ao futuro. Reconhece que as “ambições desmedidas” são as “forças dominantes” de sua vida (27 de outubro de 1909) e a promessa de alcançar a fama, o sonho de Stephen Dedalus, seu alter ego, de um tempo ulterior em que suas epifanias serão enviadas a “todas as grandes bibliotecas do mundo, incluindo a de Alexandria” (em Ulysses), ecoa pelas cartas.

Nada muda quando se trata do “presente respeitante às coisas presentes”. O Joyce perfeccionista, capaz de ordenar detalhes no vestuário de Nora, é o mesmo que visitava amigos para anotar trechos de seus diálogos e apreender, nas conversas banais, o indício de algo único, revelador. Ele reconhece, a 22 de agosto de 1912, sua compulsão: após perguntas e recomendações que descem a detalhes da higiene pessoal de Nora, exclama, referindo-se a si mesmo, num paroxismo, “Pobre Jim! Sempre planejando e planejando!”.

A realidade se encarregou de atormentar o autor de Finnegans Wake com antiepifanias. E, apesar do permanente remordimento da consciência – o agenbite of inwit que ele inocula em Dedalus e Leopold Bloom, de Ulysses –, Joyce conseguiu extrair beleza do desespero. Os “cascos que brilham no meio da pesada noite como diamantes, apressando-se para além do gris” (Epifania 27) ou os olhos de Nora, “flores silvestres azuis crescendo em alguma sebe emaranhada e molhada de chuva”, na carta escrita a 19 de novembro de 1909, são comoventes. Mas a “besta ártica”, que o escritor fustiga com a bengala na Epifania 16, avulta de forma perturbadora: ela é o próprio James Joyce, contorcendo-se sobre si mesmo e murmurando palavras numa língua incompreensível.

(Publicado na Folha de S. Paulo, em 23 de dezembro de 2012.)

Hoje, quando a mediocridade e a ideologia esquerdista dominam as escolas, a ideia do homeschooling deve estar presente em todas as famílias que realmente desejem educar seus filhos. No blog Homeschooling Brasil, encontrei a inesperada e bem-vinda sugestão de recuperar, com as crianças, os poemas infantis de Olavo Bilac. Parabéns ao Rafael Falcón!

O impagável Gustavo Nogy segue exercitando sua veia irônica e mostra como Stephen Hawking, no fundo, é apenas um ficcionista.

Um curso sobre prática de leitura e formação do estilo pode ter inúmeras utilidades. É o que experimentamos, meus alunos e eu, nas últimas semanas, dialogando com Homero, W. B. Yeats, Italo Calvino, Paul Valéry e tantos outros autores. Contudo, a lição que mais nos estimula é perceber, a cada aula, como Roland Barthes estava errado: numa narração não há apenas “a aventura da linguagem”, ainda que a retórica barthesiana, sempre pronta a querer nos iludir, insista, subindo o tom: “a incessante celebração do advento da linguagem”. Belas palavras, mas, como em todo exercício de retórica, no fundo não refletem a realidade, são apenas um adereço que busca seduzir, convencer sem provar.
 
Na verdade, a cada aula redescobrimos que a literatura é “o dispositivo mais importante da civilização para aprender o que deve ser afirmado e o que deve ser negado”, como disse John Gardner, pois não há literatura desvinculada do real, apartada do contexto das nossas escolhas pessoais, da nossa vida. Ou, nas claríssimas palavras de Matthew Arnold: “A vida diária de um homem, em sua solidez e valor, depende de se ele lê nesse dia; e ainda muito mais do que ele lê durante esse dia”.

Vivemos uma época que se acovarda com a mera possibilidade de que haja certezas, e uma de suas consequências mais perturbadoras é a facilidade com que é possível separar as palavras das realidades conceituais que qualquer mente saudável sabe que são seus referentes.

Trecho de uma carta do historiador Jacob Burckhardt a seu amigo, Friedrich von Preen:

“[…] O grande dano teve início no século passado, principalmente através de Rousseau, com sua doutrina da bondade da natureza humana. Com base nisso, os plebeus e as pessoas educadas destilaram a doutrina da idade do ouro que viria infalivelmente, desde que as pessoas fossem deixadas por sua conta. O resultado, como qualquer criança sabe, foi a completa desintegração da ideia de autoridade da cabeça dos mortais, e é claro que, em consequência, periodicamente somos vítimas do poder absoluto. Enquanto isso, a ideia da bondade natural do homem transformou-se, entre o estrato inteligente da Europa, na ideia de progresso, isto é, fazer dinheiro e desfrutar de confortos modernos sem perturbação, com a filantropia para acalmar a consciência. […]

A única salvação concebível seria que esse insano otimismo, em menor ou maior grau, desaparecesse do cérebro das pessoas. Mas, então, nosso atual cristianismo não está à altura da incumbência; ele optou por isso e acabou se misturando ao otimismo nos últimos duzentos anos. Uma mudança terá de vir, mas só Deus sabe à custa de que sofrimentos. Nesse meio tempo você está construindo escolas – pelo menos você pode assumir essa responsabilidade perante Deus; enquanto eu instruo meus alunos e meu público. Não faço grande segredo de minha filosofia a meus alunos; os mais inteligentes me entendem, e, ao mesmo tempo que faço tudo o que posso para honrar a verdadeira felicidade que o estudo e o conhecimento oferecem – por menos que possam ser –, sou capaz de dar a cada um algum grau de consolo.”

(2 de Julho de 1871)

De um ensaio de T. S. Eliot sobre William Blake:

“Os Songs of innocence and of experience, assim como os poemas do manuscrito Rossetti, são poemas que revelam um profundo interesse pelas emoções humanas e um profundo conhecimento destas. As emoções são expostas sob forma extremamente simplificada e abstrata. Essa forma é uma ilustração da eterna luta da arte contra a educação, do artista literário contra a contínua decomposição da língua.

É importante que o artista deva ser altamente educado em sua própria arte; mas sua educação é aquela que atrapalha mais do que ajuda, pois ele a recebe através do processo comum da sociedade em que se resume a educação do homem comum. É que esse processo consiste amplamente na aquisição de ideias impessoais que obscurecem o que de fato somos e sentimos, o que realmente desejamos e o que na verdade instiga nosso interesse. Não se trata, é claro, da efetiva informação adquirida, mas do conformismo que o acúmulo de conhecimentos será capaz de impor, o que é nocivo. Tennyson nos dá o claríssimo exemplo de um poeta já totalmente incrustado na opinião do público, já completamente incorporado ao seu meio. Blake, por outro lado, sabia o que lhe interessava e, por conseguinte, apresenta apenas o essencial, apenas, na verdade, o que pode ser apresentado, e dispensa explicações. E porque não se perturbou, ou não se apavorou, ou não se ocupou de nada que não fossem concisas afirmações, pôde entender. Ele estava nu, e viu o homem nu, do centro do seu próprio cristal. Para ele não havia nenhuma razão pela qual Swedenborg fosse mais absurdo do que Locke. Ele aceitou Swedenborg, como eventualmente o rejeitou, por razões de estrito foro íntimo. Abordou tudo com a mente alheia às opiniões então vigentes. Não havia nele nada que sugerisse a pessoa superior. E isso o tornou aterrorizante.”

(Tradução de Ivan Junqueira)

Tolstoy is the greatest Russian writer of prose fiction. Leaving aside his precursors Pushkin and Lermontov, we might list the greatest artists in Russian prose thus: first, Tolstoy; second, Gogol; third, Chekhov; fourth, Turgenev.
Vladimir Nabokov, from “Lectures on Russian Literature” (via drawpaintprint)

(vía russkayaliteratura)

A sábia lição de Vladimir Nabokov.

Não é preciso grande malícia para escrever crítica! Pode-se julgar a qualidade de um livro pelo vigor dos socos que ele nos deu e pela extensão com que em seguida nos recuperamos.

“Senhor, não haveremos de pôr estes dons a Teu serviço?
A Teu serviço não haveremos de pôr todo o nosso empenho
Em nome da vida e da dignidade, da graça e do rigor,
E dos prazeres intelectuais dos sentidos?”
- T. S. Eliot, “A Rocha”, IX

Don’t aim at success — the more you aim at it and make it a target, the more you are going to miss it. For success, like happiness, cannot be pursued; it must ensue, and it only does so as the unintended side-effect of one’s dedication to a cause greater than oneself or as the by-product of one’s surrender to a person other than oneself. Happiness must happen, and the same holds for success: you have to let it happen by not caring about it. I want you to listen to what your conscience commands you to do and go on to carry it out to the best of your knowledge. Then you will live to see that in the long run—in the long run, I say!—success will follow you precisely because you had forgotten to think of it.
Em tudo que é digno de ter – mesmo nos prazeres todos – há uma porção de dor ou tédio que deve ser preservada a fim de que o prazer possa renascer e perdurar.